CLASSIFICAÇÃO DAS ARMAS DE FOGO
Claudionor Rocha
A punibilidade do porte ou do uso irregular de arma de fogo
é prevista no Brasil desde as Ordenações Filipinas. Essa
conduta referia-se às armas normalmente comercializadas
entre particulares, uma vez que aquelas de uso exclusivo
das Forças Armadas e policiais, não sendo passíveis de
venda no âmbito privado, tinham sua posse implicitamente
vedada. Até a elaboração da Lei nº 9.437/97, a
contravenção de porte de arma não as distinguia entre as
de uso permitido e as de uso proibido ou restrito. Com a
nova lei, a infração contravencional subsiste apenas para
os casos de arma imprópria (objeto usado como arma) e
arma branca (arma não de fogo, dotada de gume, corte ou
fio, simples ou duplo, como facas, punhais e espadas).
O critério mais comum para a distinção entre arma de
fogo de uso restrito e de uso permitido é o calibre, assunto
infelizmente não abordado pela legislação. Designa-se
calibre ao diâmetro interior do cano e, por extensão, ao
diâmetro do projétil utilizado. Geralmente é dado em
milímetros ou polegadas (uma polegada: 25,4 mm,
símbolo). No caso da polegada o calibre é fornecido em
centésimos ou milésimos da unidade. Exemplo: 9,65 mm
é o mesmo que .38 (ponto trinta e oito), ou seja 38
centésimos de polegada, correspondendo ao popular 38
ou ‘‘três-oitão’’, equivalente teoricamente a .380, igual a
380 milésimos de polegada. Já 357 ou .357, significa
0,357’’ (9,0678 mm). Então, .22 (5,588 mm) é o mesmo
que 0,22’’. Assim, 7,62 mm e 7,65 mm se aproximam do
calibre 30, enquanto 10,16 mm corresponde ao .40 e
11,176 mm ao .44. O ponto, na notação americana,
equivale à vírgula na nossa, como em US$ 0.40 (quarenta
centavos de dólar), desprezando-se o zero na designação
do calibre. Tal correspondência admite ligeiras variações e
são diferenciadas geralmente em função do tipo e potência
da munição. Há que se considerar, também, que o calibre,
na câmara, onde se aloja o cartucho, é ligeiramente
superior ao do cano, a fim de acomodar a cápsula ou
estojo, que contém a bala. Portanto, a dimensão da
munição nem sempre coincide com a da arma, motivo por
que admitem a mesma munição calibre .38 e .357,
equivalentes, grosso modo, ao calibre 9 mm (.354). Por
outro lado, o revólver .32 ‘‘calça’’ a munição do calibre da
pistola 7,65, não ocorrendo o inverso porque o cartucho da
munição do revólver não possui a aba ou culote, que
permite a extração do estojo automaticamente, após cada
tiro, na pistola. Para espingardas, o calibre é calculado por
outro modo, chamado sistema inglês. Consiste na
determinação de quantas esferas de chumbo da justa
medida do diâmetro do cano perfazem uma libra (453,592
g) e, na ordem inversa, o número menor corresponde ao
maior calibre: 12, 16, 20, 24, 28, 32 e 36. Outra
particularidade quanto às espingardas é o choke,
estrangulamento do cano a partir da culatra, visando a
maior alcance e melhor distribuição do tiro.
Entre as armas de grosso calibre, designadas como
armamento pesado, utilizadas pela artilharia militar e
geralmente autopropulsadas, estão os canhões,
obuseiros, lançadores de foguetes e mísseis, cujos
ancestrais foram as bombardas do séc. XIII. De calibre
médio são as armas de uso coletivo, de infantaria e
cavalaria, como canhões antitanque, morteiros,
lança-rojões (bazucas) e metralhadoras pesadas. Por
conveniência pública, alguns calibres e modelos são
considerados privativos das Forças Armadas,
especialmente até o nível das armas portáteis, de baixo
calibre. Surgidas no século XV, consideram-se portáteis
as armas conduzidas por um só indivíduo, mas que
exigem o uso de ambas as mãos para seu emprego,
como as submetralhadoras, fuzis, carabinas, rifles,
espingardas, mosquetões e escopetas, também
chamadas armas longas. Já armas de porte (curtas) são
manejáveis com apenas uma das mãos e que
normalmente são trazidas à cinta, ou coldre, tais como
revólveres, pistolas e garruchas. A exceção são as
pistolas-metralhadoras, não coldreáveis, mas passíveis de
emprego utilizando-se apenas uma mão, devido a seu
tamanho e peso reduzidos.
Outra classificação diz respeito ao interior cano (alma)
ser raiado ou não. Raias são sulcos helicoidais ao longo
do cano que proporcionam rotação e estabilidade ao
projétil, aumentando a eficiência do tiro, pelo ganho em
precisão e alcance. Pelo maior poder destrutivo,
normalmente as armas raiadas são de uso restrito. As
armas podem ser, ainda, de repetição, quando após cada
tiro é preciso acionar o mecanismo de carregamento da
munição; semi-automáticas, quando tal carregamento é
automático, mas cada tiro requer um acionamento do
gatilho; automáticas, quando os tiros saem em rajadas,
ininterruptamente, bastando manter acionado o gatilho.
Irrelevante no campo penalmente apreciável é o sistema
de carregamento da munição, geralmente retrocarga, ou
seja, pela parte anterior do cano, junto à culatra, donde a
expressão ‘‘o tiro saiu pela culatra’’, isto é, para trás.
Remanescem poucas armas que utilizam o sistema
antecarga ou avancarga, carregadas pela boca, a exemplo
dos canhões antigos, e tais são os morteiros e as
espingardas chumbeiras (‘‘bate-bucha’’), descendentes
dos arcabuzes. A multiplicidade de bocas de fogo numa
mesma peça também não é penalmente considerada,
sendo comum nas espingardas e rifles os de canos duplos
justapostos e mais raramente superpostos, e como peças
de museu, triplos.
Quanto à munição, utiliza-se, hoje, quase que
exclusivamente o cartucho metálico (cápsula ou estojo,
quando vazio) contendo pólvora como elemento propulsor,
provido de uma espoleta que deflagra a pólvora e munido
com bala única, comumente usada nas armas raiadas.
Além da munição real, comum, há a traçante, para
correção de pontaria, no tiro noturno, além da munição de
festim, para treinamento, desprovida de projétil e contendo
apenas pólvora. As armas de alma lisa também utilizam
cartuchos, metálicos recarregáveis ou plásticos
descartáveis, os quais contêm em seu interior balins de
chumbo, esferas de variada dimensão e quantidade,
conforme a finalidade do tiro (caça de grande ou pequeno
porte). As espingardas chumbeiras são carregadas pela
introdução, pela boca do cano, de pólvora e chumbo,
sendo a potência do tiro definida pela quantidade desses
componentes e pela pressão exercida pela bucha, matéria
inerte que os fixa mediante socadura feita pelo atirador por
meio de uma vareta, acessório da arma. A quantidade de
projéteis (chumbos), aliada ao maior calibre e menor
comprimento do cano, tornam as armas de alma lisa
perigosas, pela dispersão dos balins, motivo pelo qual as
de calibre 12 de cano curto são de uso restrito.
Por fim, no aspecto militar, podem ser diferenciadas,
ainda, entre ofensivas (leves) e defensivas (pesadas),
individuais e coletivas, convencionais (projéteis metálicos
perfurantes, explosivos ou incendiários) e não
convencionais ou de destruição em massa. Situam-se
neste segundo grupo as atômicas, nucleares, químicas
(gases) e biológicas (bactérias), geralmente chamadas
estratégicas, pelo alcance, em oposição às táticas, de
pequeno raio de ação.
Claudionor Rocha
Delegado de Polícia Civil do Distrito Federal
Extraído do site do jornal Correio Braziliense
© O Neófito 1997-2003 | Todos os direitos reservados.
Todas as informações contidas neste site podem ser reproduzidas mediante comunicação, exceto os artigos.
|